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Repórter: Redação
Publicação: 01/07/2020 11h28

Nesta quarta-feira (1), a série de entrevistas com os presidentes da Sociedade Esportiva Bandeirante traz o depoimento de José Carlos Loos - Juca (76), que presidiu o clube de 1974 a 1976, de 1990 a 1992 e de 2000 a 2002. Porém, participou da diretoria por mais de 40 anos. 

Confira abaixo, os principais trechos da conversa, realizada na manhã de quinta-feira, 30 de abril, no container - em frente a sede social do clube. Atualmente, Loos é vice-presidente do Conselho Deliberativo. 



Quais os principais marcos das suas gestões para o clube? 

Eu tenho bastante história para contar. Quando começamos a administrar o clube, junto com outros amigos, era uma época que tudo estava quase parado, porque não havia controle de sócios, mensalidades muito atrasadas e contas como a energia elétrica também. Nós jogávamos futebol naquele campo grande que tinha onde hoje estão o suíço e as quadras. Ali tinha um campo bem grande com pista de atletismo ao redor, que foi feito para os Jogos Abertos, mas não era utilizado. Então todos os sábados a gente vinha com amigos jogar futebol suíço e era uma novidade para Brusque.

O futebol suíço chama-se futebol society, ou seja, é um futebol entre amigos, que jogam sete para cada lado e aquilo ficou uma tradição e depois trouxe novos sócios. Quando nos juntamos para decidir o que fazer com o Bandeirante fizemos planos e projetos, inclusive para longo prazo. Quem começou comigo em 1972 como primeiro presidente foi o dr. Nivaldo Diegoli, que hoje mora em Florianópolis. Ele com mais alguns amigos que faço questão de citar, fizemos a primeira diretoria: o saudoso Chico Wehmuth, José Orlando Batistoti - também saudoso amigo, Pereirinha, Augustinho Zimmermann, Vinícius Barbosa - grande trabalhador pelo clube e a minha modesta pessoa. Essa equipe é que começou a fazer o novo Bandeirante. Para isso, até foi ideia do seu Nivaldo, decidimos fechar lá embaixo a portaria, para fazer com que só pudesse subir quem estivesse em dia com suas mensalidades.

Nós tínhamos uma sede antiga antiga e a antiga portaria que era lá embaixo na subida do morro. E de lá em diante começou a surgir diversos planos e o número de sócios foi aumentando violentamente. Chegamos até uma época áurea do clube que tínhamos 1,3 mil sócios. Vimos que aquela foi uma decisão acertada. Com aquilo a gente conseguia recursos para fazer todas as construções que o clube tem. Eu participei de todas. Com isso, o clube foi crescendo e cada vez adquirindo mais popularidade na cidade, porque ficou sendo o clube mais mais bonito do Vale do Itajaí e quiçá de Santa Catarina. Hoje o clube é completo e sempre foi a minha segunda casa. Eu vinha tanto aqui no Bandeirante durante esse período, que minha esposa até dizia que a minha segunda casa era aqui. E era verdade. A gente se dedicava muito. No início mesmo, o seu Nivaldo chegava a me ligar para levar a Kombi e trazer árvores e flores para plantar. A gente sempre estava de olho na natureza, que é onde a gente se sente bem.

O momento mais desafiador foi derrubar a sede velha, que era no estilo germânico. Isso aqui era um clube de alemães, até durante a guerra ele foi interditado. Ele foi fundado em 1900 e logo em 1943 começou a segunda guerra mundial. A de 1918 também influiu, porque praticamente aqui todos eram alemães e eles praticavam handebol, que hoje não tem mais. Tinha também ginástica, que era importante e eles gostavam de fazer. E também o clube Bandeirante foi cedido por muitos anos ao Carlos Renaux, que jogou futebol profissional aqui em cima até 1932, quando foi inaugurado o Estádio Augusto Bauer. Essa sede antiga foi muito difícil decidir, porque ela era muito linda. Ela podia talvez ficar a salvo, mas tinha muitas rachaduras comprometedoras. Já tinha barras de ferro para segurar as paredes. Ela tinha dois andares, tinha um mezanino em cima e um salão de festas. No porão tinha uma geladeira natural que se colocava bebida, porque vinha mais fresca. No palco ficavam os aparelhos de fazer ginástica, como o cavalo e a trave.

Com o tempo foram trocando esses alemães por outras pessoas, outras ideias começaram a vir, como o futebol suíço, o vôlei e o basquete. E um dos marcos maiores, eu acredito, que foi a sede social. Que é essa nova que está aqui. Sempre no estilo germânico, enxaimel. Procuramos manter aquela tradição alemã. Ela não foi fácil de fazer, sabe. Tínhamos que fazer campanha, listas de colaboração, etc. Internamente ela era bem diferente. Tivemos que excluir diversas paredes. A secretaria era lá dentro. Ampliamos o salão para caber mais gente, porque os bailes eram muito bons. Fazíamos bailes memoráveis. Casamentos enormes eram feitos no Bandeirante, que tinha um diferencial dos outros clubes de Brusque: tinha e tem um grande estacionamento. Dentro da sede funcionava o Rotary, o clube fez esse convênio.

O Bandeirante foi o primeiro clube com ar condicionado em sua sede social. Tínhamos na piscina o baile do Havaí, que vinha gente de todos os lugares. Uma vez trouxemos o Lobão e veio mais de três mil pessoas. No dia bateu uma chuva muito forte, molhou os aparelhos eletrônicos e ele não queria cantar depois voltou atrás. Nós tínhamos bailes de debutante lindos. Nos anos 1960, nós tínhamos o Forever Young, tínhamos festas que vocês não acreditam a fluência. Era outra época. Na parte esportiva o vôlei era muito famoso em Brusque e o time participava sempre como um dos primeiros colocados dos Jogos Abertos. Com o basquete chegamos a entrar no campeonato nacional. Veio o Oscar e foi um sucesso incrível. É Sociedade Esportiva Bandeirante e abrange as duas coisas, a parte social e a parte esportiva. Essa união das duas coisas é que fez com que o clube crescesse. Sempre tivemos preocupação com a comunicação.

Lá em 1975 começamos a imprimir um jornalzinho que era distribuído entre os sócios. Depois, evoluímos para um jornal maior, impresso em gráfica. Quando chegou no centenário fizemos um livro histórico, impresso no ano 2000. Nessa época, eu era presidente também. A festa foi de arrepiar. O Bandeirante tem uma história impagável. Por último fizemos uma revista, já com papel especial, bimensal, que se chamava Turnverein, que era o primeiro nome do Bandeirante. Aí depois com a guerra esse nome foi proibido. 



De que forma o Bandeirante contribuiu para a sua própria história e de sua família? 

Foi importante, porque ser presidente ou diretor de um clube dá muita responsabilidade, é preciso sempre ficar atento ao que está acontecendo. As mensalidades precisam ser compatíveis com o que ele oferece. Então é preciso sempre ter um cuidado para administrar bem. Para isso, a gente tinha sempre um bom conjunto de companheiros. Hoje está sendo renovado, acho que da minha velha guarda não tem mais ninguém na diretoria atual, porque ela foi renovando, né. Foi sempre escolhido de comum acordo sem nenhuma interferência.

Quando eu falei do Rotary, ele foi muito importante porque tivemos um presidente do conselho quase que vitalício, que era o senhor Waldemar Schlosser. Ele conseguia administrar muito bem essa parte para nunca deixar o clube cair em mãos de pessoas, que não fossem ligadas ao Bandeirante e eu praticamente era o articulador dele. As reuniões a gente fazia de propósito as quintas-feiras, porque era junto com o Rotary e quando a gente notava que faltava um voto ou outro para aprovar alguma coisa eu ia no Rotary e trazia as pessoas para cá. Por isso, a gente sempre conseguiu nesses 120 anos controlar o clube, dentro de uma amizade, dentro de uma família, tanto que hoje o clube até tem o slogan dizendo que isso aqui é a casa do sócio do Bandeirante.

Com certeza, para mim sempre foi mais trabalho do que lazer. Eu gostava de ter compromissos. Chegou uma época que eu tinha 11 compromissos voluntários, aqui e em outras entidades. Eu gostava de ajudar. Hoje eu não consigo mais, porque cansou. Mas graças a Deus eu ainda faço parte aqui da administração, que eu sou vice-presidente do conselho deliberativo. Então, eu faço questão de não faltar em nenhuma reunião, porque inclusive durante as reuniões eu conto coisas que aconteceram antigamente.


Como o senhor avalia a trajetória do Bandeirante ao longo dos anos, considerando que a história do clube se mistura com a história de Brusque? 


Eu acho que o Bandeirante cresceu junto com a cidade, sempre acompanhando as evoluções em todos os sentidos, porque também nós tínhamos pessoas muito responsáveis e interessadas. Na época dos Jogos Abertos, por exemplo, nós tínhamos ali em frente a sede a estátua do senhor Arthur Schlösser, que foi o pai dos jogos abertos de Santa Catarina. Ele que trouxe a ideia e aquilo foi fundamental para o crescimento do clube. Ele tinha uma facilidade de conseguir colaboradores para tocar essa parte esportiva, que era até ex-funcionários da Schlosser na época, era o Pipoca, o Badão, o Fachini - pessoas que se dedicavam principalmente ao esporte e automaticamente ajudando o seu Arthur e o Bandeirante. 


Qual a sua relação com o clube hoje? 


Hoje eu venho pouco aqui. Eu tenho título de sócio benemérito. Sou sócio remido, devido aos anos que participei. Eu acho que o clube está cada vez mais bonito e é o que a gente espera. Nossas crianças que vêm aqui, hoje meus netos quando vêm acham uma coisa inédita. E realmente é. Se você olhar todos os clubes de Santa Catarina é difícil encontrar um melhor. Igual pode ser. Fico muito orgulhoso. Eu fico até emocionado, porque quando a gente trabalha por uma causa desse tipo, que não é sua, é para a sociedade, é para os associados, é muito gratificante. Realmente acho que o Bandeirante é uma estrela maior, que está aqui em Brusque.


O desejo do Bandeirante, ao comemorar 120 anos, é ser a segunda casa dos seus sócios. Em qual espaço o senhor se sente mais em casa? 


Essa construção aqui por exemplo (container) estava muitos anos no nosso programa de obras futuras, ou seja, um bar que atendesse a piscina e que atendesse o futebol e o pátio. Nessa área aqui eu me sinto muito bem, porque ela foi muito bem escolhida. Não fui eu que construí. Eu vejo pessoas jogando dominó, jogando cartas, tomando um aperitivo. Nós tínhamos isso antigamente na sede velha. Onde a gente fazia a curva, na frente dela tinha um bar que era super ocupado. Vinham pessoas diariamente ali conversar.

No fim até surgiu um clube daquilo ali. Chamava-se “O Clube das Cigarras” e o pessoal se reunia sempre às sextas-feiras para bater papo, fazer fofoca e política. Cada vez começou a vir mais gente e tivemos que ocupar o salão. Ali tinha uma figueira muito linda, que mais tarde tivemos que cortar. E ali hoje temos esse belo estacionamento. Tanto é que na sede nova também fizemos este bar internamente, mas não funcionou, porque o pessoal não entrava. Só antes dos casamentos e bailes. Por isso, essa ideia (do container) estava madura,  porque é um lugar ao ar livre, junto a vegetação. Então é um lugar muito especial. 



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