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Colunista: Luiz Gianesini
Publicação: 24/07/2020 06h13

O entrevistado desta semana é o presidente do Avaí e da SC Clubes,  Francisco José Battistotti, nascido em Santo Amaro da Imperatriz, em 09/10/1948 (72 anos). Torce para o Avaí Futebol Clube.

Como surgiu o esporte em sua trajetória, notadamente o futebol?
Desde pequeno peguei o gosto pelo Avaí. Na minha infância, em Santo Amaro da Imperatriz, cresci numa família de cinco irmãos. Eu e mais quatro que cresceram torcendo pelo Figueirense. Aliás, uma família de alvinegros. Eu era o mais velho. E cresci sem me afastar do futebol, sempre acompanhando tudo e torcendo pelo Avaí. 

Atuou como atleta? 
Fui goleiro de futebol de salão, sempre amador. Jogava na minha região. Não passei disso. Mesmo com as dificuldades, sempre me dediquei mais aos estudos e onde construí minha carreira na área de gestão. 

E a presidência do Avaí, foi consequência de sua atuação na área esportiva?
Em 1973 eu passei a ser conselheiro do Avaí aos 25 anos. Em 1978, o presidente do clube era José Nazareno Vieira (o Zeno), mas o presidente do Conselho Deliberativo do Clube, José Matusalen Comelli, convidou-me para ser diretor de base do Avaí, ainda no antigo Estádio Adolfo Konder. Fiz meu trabalho até o meu casamento. A partir daí eu me afastei para formar minha família. Segui sendo sócio do Avaí. Em 2004, retornei ao Avaí após a aposentadoria, já no Estádio da Ressacada. Colaborando com a direção do clube. 

A presidência do clube praticamente caiu no meu colo. Eu tinha sido eleito vice-presidente na chapa do então presidente Nilton Macedo Machado, que renunciou. Assumi o clube em 15 de abril de 2016. Confesso que não foi fácil. Muitas pessoas queriam que eu não assumisse. Mesmo contrariando muita gente e sob oposição forte de alguns segmentos, assumi o clube. Minha primeira "conquista" foi evitar o rebaixamento no Estadual, com uma vitória sobre o Guarani. Depois seguimos com o nosso trabalho, com muitas dívidas. E o principal desafio foi alcançado no fim do ano, com o acesso à Série A. Conquistamos o vice da Série B e nosso do acesso foi a vitória de 1 a 0 sobre o Londrina, no Norte do Paraná. 

Foi uma corrente que fizemos com atletas e comissão técnica. E deu certo esta união pelo acesso. Depois, no final de 2017, fui eleito para mais quatro anos, com 92,44% dos votos. Sinal que houve reconhecimento pela boa gestão, pois focamos no saneamento do clube. Hoje estamos três anos seguidos com superávit contábil em nosso balanço anual. E aos poucos vamos solidificando o clube em busca do objetivo maior que é a permanência na Série A consolidada. 

Como ocorreu a presidência da SC Clubes?
Com a renúncia do ex-presidente Nilton no Avaí, que era o presidente da SC Clubes, por direito quem deveria assumir seria eu. Mas em função de algumas mexidas no tabuleiro, alijaram o Avaí e colocaram outro presidente. Ano passado, Luiz Henrique, o presidente da SC Clubes, renunciou e eu fui eleito presidente e estou no atual mandato. Buscando unir o futebol catarinense em torno da Associação, que envolve clubes das Série A e B do Estadual. Unidos somos mais fortes para lutar por um futebol mais estruturado para Santa Catarina. Este modelo, que é único no país e tem sido visto como uma grande alternativa. 

Por que os representantes catarinenses não conseguem permanecer na disputa da Série A do Brasileirão?
Uma boa pergunta esta, pois é sempre motivo de preocupação em Santa Catarina. Mas eu posso dizer que a diferenciação financeira é um dos fatores primordiais para dificultar a permanência dos clubes catarinenses na elite. Há uma diferença abissal nas cotas de TV. Diferença em patrocínios, em número de sócios. Tudo é desigual para os clubes catarinenses. Dos 20 clubes que disputam a Primeira Divisão, pelo menos oito deles são os que formam o grupo do sobe e desce todos os anos. Os demais 12 clubes são os que têm condições financeiras para permanecer praticamente todos os anos, com raras exceções. Todos estes oito clubes tem déficit enorme. Você só conseguirá fazer a permanência por mais tempo na Série A, quando tiver recursos, estabilizado. É o que estamos tentando fazer no Avaí. 

A que o senhor atribui a queda vertiginosa do Joinville da Série A para a Série D, sequencialmente?
Eu posso dizer que a falta de recursos e a gestão temerária, com contratações equivocadas, que não deram certo, são ações que levaram o Joinville a este caminho de descida no futebol. Hoje, se você contrata um atleta errado, não pode dispensar antes do término do contrato. Então, contratou errado, é um prejuízo financeiro enorme e um prejuízo técnico que leva a um descenso. O Joinville é um grande clube, numa grande cidade. Aliás, uma cidade que é pólo industrial. Tem tudo para se reerguer. Eu como presidente da SC Clubes, quero muito que o Joinville dê a volta por cima no cenário nacional e volte a estar em destaque. Isso é bom para o futebol catarinense, com clubes fortes e saudáveis. 

Acredita que a nova fórmula das finais do Catarinense é mais adequada? Não é pior para os perdedores das quartas de final? Não poderá ser injusta para uma equipe que aposta em grandes jogadores e chegando nas quartas ver tudo perdido por tropeço inesperado?
A atual fórmula de disputa do Estadual, que ainda está por terminar, é a mais adequada, a mais atrativa e em sintonia com a nova realidade do calendário do futebol brasileiro. Com o enxugamento de datas, temos que ter um campeonato adaptado às datas e que seja atrativo. Só lamento é que levamos ao conselho arbitral a proposta de vantagem para os clubes nas fases finais, a partir das quartas. Hoje não existe vantagem alguma a não ser jogar a segunda partida em casa. Eu vejo como interessante a equipe que ficou na frente ter pelo menos a vantagem de dois resultados iguais. Isso atrapalhou um pouco esta fórmula. Hoje, com jogos em meio à Pandemia, sem público, os estádios viraram locais neutros. 

Em que a Pandemia poderá prejudicar as equipes?
A Pandemia prejudicou demais. E ainda estamos sofrendo os reflexos disso. A finanças dos clubes ficaram prejudicadas e isso é fundamental. Os clubes perderam dinheiro das cotas de TV, parcelas ainda pendentes, alguns perderam patrocinadores, vamos ter de jogar sem público. Enfim, muito difícil. Entendo que nossa preocupação seja em salvar vidas, isso é fundamental. Mas o futebol é um negócio e precisa, como tal, sobreviver à Pandemia, ter vida própria. Ter segurança com seus protocolos. O Futebol hoje é um local seguro, sem dúvida alguma. E precisa ser encarado como tal. Vai demorar bastante para todos se recuperarem deste prejuízo. Mas sou otimista, vejo um futebol ressurgindo no futuro, mais forte ainda. 

A Federação não faz nenhum trabalho para trazer de volta as equipes tradicionais que estão paradas no tempo, como por exemplo: CA Carlos Renaux, Paysandu, Olimpico, etc...? 
As comunidades têm que estar ao lado de seus clubes tradicionais, não tenho dúvida. Mas hoje a realidade é bem diferente. O futebol virou um negócio mundial e não há espaço mais para romantismo. Eu sou de um tempo em que os clubes tradicionais eram fortes, com o apoio de suas comunidades, que pegavam junto e ajudavam na sobrevivência. Geralmente eram competições regionais fortes. O futebol hoje tem uma dimensão mundial. 

O Avaí negocia atletas com a Europa. Jogamos com frequência a Primeira Divisão e competição internacional como a Sul-Americana. Já recebemos na Ressacada jogos da Seleção Brasileira. Temos atletas convocados nas categorias de base, onde o Avaí é muito forte. Hoje, o lado econômico fala muito mais alto. Temos a criação dos "clubes-empresas", um caminho sem volta. As equipes tradicionais, respondendo sua pergunta, decidiram cuidar e bem dos sócios, manter suas estruturas preservadas, para terem uma sobrevivência duradoura. 

Lembro aí em Brusque a fortaleza que é a Sociedade Esportiva Bandeirante, um clube sólido. Temos em Florianópolis o Paula Ramos Esporte Clube, campeão catarinense em 1959. Mas hoje um clube social, que teve que dar um passo atrás para dar outros à frente. Destaco aí em Brusque, por exemplo, o Clube Esportivo Paysandu. Uma tradição desde 1918. Um clube mais antigo do que o próprio Avaí. Mas que está licenciado e com seu patrimônio preservado. Assim como Carlos Renaux, que estava afastado do futebol, desde o surgimento do Brusque, que uniu a cidade. Enfim, acho que o caminho é a sobrevivência num mundo em que o futebol virou negócio e não há chance para aventuras. A preservação das equipes tradicionais é fundamental para sua sobrevivência. Estão congelados na história pelo que deram de contribuição ao futebol. 



Luiz Gianesini - Coluna Personalidades do Esporte

Nascido em Brusque, em 8/10/1948, Luiz Gianesini é filho dos saudosos Evaldo e de Ida Maria Boni Gianesini. Já escreveu suas crônicas em diversos jornais. Em EsporteSC, conta quinzenalmente a história de celebridades que marcaram época no esporte E-mail para contato luizgianesini12009290348371743@2009290348371091gmail.com.