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Repórter: Sidney Silva
Publicação: 26/03/2020 20h49
Atualização: 23h13

Era uma tarde de sexta-feira chuvosa em Brusque, o rio Itajaí-Mirim estava cheio, e o trânsito perigoso. Por volta das 18h do dia 25 de março de 2016, a caminho do Fort Atacadista, em Brusque, Eri Eduardo Vargas, então com 27 anos, com uma passageira, trafegava com um carro modelo Honda Civic pela avenida Beira Rio com o intuito de comprar um ovo de páscoa para o filho, na época com quase 5 anos. Apesar do mau tempo, parecia mais um dia comum na vida do brusquense, mas pouco depois de passar pela ponte estaiada, em fração de segundos tudo mudou.

“Ao passar debaixo da ponte, tinha um pouco de água na pista, o que fez o carro aquaplanar de leve, porém, um "olho de gato" que tem no meio da rua estava quebrado, ficando só o taxão pra fora, isso fez com que o pneu do carro furasse, então eu rodei na pista e começou o pesadelo”, conta Eri, que hoje mora em Balneário Camboriú, onde atua como tatuador e músico.  “Cai no rio, segundo os bombeiros o rio estava com algo em torno de 15 metros de profundidade, por causa dos três dias de chuva... Ao cair no rio, foi tudo muito rápido, em questão de segundos o carro estava cheio de água, totalmente trancado, foi uma prisão de água”, conta ele, ao se deparar com o momento entre a vida e a morte. 

“Nos primeiros segundos não tive muita reação, lembro de pensar vagamente "nossa, é assim que eu vou morrer?" Mas um minuto depois, quando comecei a ficar sem ar, o instinto de sobrevivência falou mais alto: soltei o cinto e procurei uma forma de sair do carro. Nesse momento, estava praticamente submerso", recorda. "Ao olhar para a parte traseira do carro, em meio a água turva, pude ver algo que me chamou a atenção, o vidro estava trincado e tinha uma bolha de ar bem no teto. Foi uma bolha de ar que me permitiu tomar um pequeno fôlego, então comecei a chutar com toda a força que eu podia o vidro traseiro, até conseguir quebrar. Machuquei bastante a perna direita por conta disso, mas consegui me livrar da prisão”, lembra.

Paralelamente, a passageira que acompanhava Eri conseguiu se salvar, ao se agarrar em um galho de árvore perto da margem, mas os problemas de Eri não pararam por aí. “Eu tinha saído do carro, mas estava em frente à Fiat Rivel, dentro do rio, em meio a uma correnteza enorme. Lembro da força da água me arrastando, e, com o ferimento na perna, a coisa piorou... As pessoas que tinham presenciado o acidente, gritavam para eu nadar para a margem, mas a correnteza era forte demais, e eu só gritava “não me deixa morrer”, conta. "Fui arrastado, afundando e me afogando, até que vi do nada um cara com uma prancha de surf no meio do rio, era o Fabiano Debrassi”, descreve. “Era um cara que eu nunca tinha visto na vida, foi inusitado, mas fui me aproximando, daquele jeito, me afundando, quase desmaiando...Quando cheguei a uns 5 metros dele, minhas pernas já não tinham forças, e tudo ficou escuro... Lembro de, nos últimos instantes, pensar no meu pai e no meu filho... E como seria meu funeral... Eu afundei, desmaiei, era o fim...”.

Anjo sobre a prancha
Mas Debrassi realmente foi um anjo na vida do condutor. “Ele não desistiu, enfiou a mão debaixo da água, e como por um milagre que só pode ter sido obra de Deus, achou minha mão em meio à correnteza e me puxou desacordado pra cima da prancha. Lembro dele me contar depois, que ele foi me levando pra margem, quando eu escorreguei pra dentro da água de novo, já meio perto da margem. Foi aonde apareceu o Mineiro, jogador do Brusque, pra ajudar o Fabiano. Juntos eles conseguiram me tirar da água... Daquele momento, até chegar no hospital, foi tudo turvo, confuso e não me lembro de quase nada”, ressalta.

Final Feliz
Essa foi a história de um dos maiores pesadelos do trânsito de Brusque nos últimos anos, mas que, ao contrário da maioria das ocorrências, terminou com um final feliz. Hoje morando em Balneário Camboriú, Eri leva uma vida normal ao lado da família e recorda da gratidão pelos heróis da noite que poderia ter sido a última. “Não tem nem o que falar, os caras foram heróis, e tudo aconteceu de forma calculada. O Fabiano tava indo surfar e passou na (avenida) Beira Rio bem na hora do acidente com a prancha no carro, e o Mineiro, que tinha ficado de fora do treino, por conta de um cartão ou algo do tipo, resolveu ir andar na Beira Rio pra espairecer... Eu acho que esses caras foram instrumentos de Deus, sou muito grato a eles por salvarem minha vida”, comenta.

O tempo fez com que Eri, Fabiano, e Mineiro, perdessem um pouco o contato que tiveram nos primeiros meses pós recuperação. O jogador chegou a visitar a vítima no hospital. Já o surfista teve o primeiro contato com Eri após o acidente no dia em que o trio concedeu uma entrevista juntos.“Tempos depois, o Mineiro ainda foi lá em casa, tomamos um café, e o Fabiano nos encontramos em um show. Fiz questão de pagar uma cerveja para ele! Era o mínimo né?”, conta Eri, sob risos.

"Mineiro, o Guerreiro"
Para os heróis da noite, o fato também mexeu bastante com suas vidas. Fabiano que, além de consultor e palestrante, pratica diversos esportes, como surf, trekking e hiking, diz que o ocorrido serviu para mostrar para ele que nada na vida é por acaso. “Tudo que aconteceu foi porque decidi agir me tornando um instrumento de uma força maior. Que estamos por aqui de passagem, que cada um deve cuidar de si procurando sempre fazer o melhor para si e aos outros de mesmo modo, ou seja, tratando os outros como desejamos ser tratados”, ressalta.

Mineiro, hoje com 30 anos, já não está mais no Brusque, mas deixou sua marca no clube. Depois do episódio, o atleta (atualmente no Botafogo-PB) se consolidou como um ídolo da torcida, que já via o jogador como um exemplo de garra dentro de campo. Esses fatores fizeram com que a torcida organizada do clube, a Força Independente, o intitulasse de “Mineiro Guerreiro”. O jogador também ganhou faixas e adereços personalizados com o seu rosto desde aquele episódio. “Esse (o salvamento) foi um dos atos, mas, antes disso, a torcida já tinha um grande carinho por ele. Depois desse ato a torcida passou a ovacioná-lo ainda mais e ele passou a se envolver de fato com a torcida e a ajudar em várias questões. A atitude dele dentro e fora de campo foram primordiais para todo esse carinho”, comenta Airton Raiser, presidente da Força Independente.

Para o jogador, o carinho da torcida e o fato de ter conseguido auxiliar Eri no momento do acidente são fatores que serão recordados para sempre. “Pode ter certeza que foi um dos dias mais incríveis da minha vida. Deus me colocou no lugar certo, na hora certa, coisa que só ele explica. Quando chega nessa data, sempre me emociono, ainda mais porque a torcida do Brusque também sempre acaba lembrando. É algo que vai me marcar para sempre”, finaliza Mineiro, o Guerreiro.

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Fotos: Arquivo EsporteSC e Programa Juliane Ferreira/Arquivo



Sidney Silva

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