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Repórter: Redação
Publicação: 14/08/2019 20h03
Atualização: 20h41

A partir dessa quarta-feira (18), o Jornal EsporteSC reproduz, em parceria com a Federação Catarinense de Basketball, por meio da revista BasqueteSC, uma série de entrevistas especiais com personagens que marcaram seu nome na trajetória do basquete catarinense. O primeiro entrevistado da vez é Sérgio Carneiro, o Serjão, o cara que evitou que Tiago Splitter largasse o basquete. Atualmente, Serjão é vice-presidente da FCB.

Ele evitou que Tiago Splitter largasse o basquete

Sérgio Luís Corrêa Carneiro, o popular Serjão, é natural do Rio de Janeiro, mas sua trajetória se confunde com a do basquete de Blumenau. Na cidade do Vale do Itajaí, chegou para ser atleta ainda nos anos 80. Tornou-se treinador, dirigente, professor, membro da seleção brasileira e é o atual vice-presidente da Federação Catarinense de Basketball (FCB).

BasqueteSC: Como foi sua trajetória no basquete desde jogador até a atual função como dirigente e comentarista?

Serjão: Comecei relativamente tarde, aos 13 anos, no Vasco da Gama do Rio de Janeiro. Depois passei por alguns clubes como Olaria, Grajaú Country e Tijuca Tênis Clube onde fiquei até a categoria adulta. Por ter dupla cidadania, fui convidado a jogar em La Coruña, na Espanha, onde tive uma experiência de seis meses. Lá aprendi muito, pois peguei o boom do basquete espanhol. De lá, voltei para o Brasil. Joguei em Lajeado-RS onde disputei o Campeonato Gaúcho. Dali, surgiu o convite para jogar em Blumenau numa estrutura muito boa na época e fiquei como jogador por vários anos. Tive uma carreira curta, parando de jogar aos 28 anos devido a uma contusão séria. Nesse período, atuei na Seleção Catarinense, fui várias vezes campeão estadual e dos Jogos Abertos e paralelamente comecei minha trajetória como treinador. Assim que parei de jogar, trabalhava com as categorias de base de Blumenau e cheguei até a equipe adulta, ganhando estaduais, dirigindo o time em Ligas Nacionais. Tive uma passagem por Brusque também, onde fizemos uma boa campanha na Liga Nacional. Em seguida, voltei para Blumenau quando montamos a APAB, retomando o trabalho da base. 

BasqueteSC: Um dos fatos mais destacados foi ter treinador o pivô Tiago Spliter em Blumenau. Como contribuiu para o desenvolvimento do atleta? É verdade que ele queria desistir e você precisou ir até a casa dos pais dele para convencê-lo a voltar às quadras?

Serjão: O Tiago começou comigo aos oito anos de idade e foi meu atleta até os 16 anos quando seguiu para a Espanha. Houve uma época em que estava dividido: a família também queria que ele jogasse vôlei, pois sua mãe tinha atuado na modalidade enquanto o pai havia sido jogador de basquete. Isso acontece com alguns garotos de Blumenau até hoje. Alguns optam pelo vôlei e outros conseguimos “resgatar”. O Tiago estava muito dividido, mas como era muito afeiçoado a mim, conversei com ele e com a família e houve a opção pelo basquete.

BasqueteSC: Além do Tiago Spliter, quais outros atletas você pode destacar por ter jogado contra ou treinado?

Serjão: Sempre digo que “filho feio não tem pai”. Tenho orgulho de muita gente que passou pelas minhas mãos. Muitos hoje são donos de empresa e me ajudam no projeto do basquete de Blumenau com patrocínio, além de serem grandes cidadãos. Embora não tenham se destacado muito, tenho orgulho de terem sido meus atletas também. Posso destacar o pivô Ricardo Probst, que começou no meu colégio e também chegou à seleção brasileira. Tivemos o Leão; o Bobó; Marcelo Splitter (irmão do Tiago Splitter); o André Iunchi, que faleceu precocemente, mas também chegou à seleção brasileira. No ginásio do Clube Ipiranga, a gente tem as camisas desses atletas penduradas, pois são todos revelados não só por mim, mas também pelo Christian Nau, João Camargo, Joel e outros treinadores. Dos atletas que dirigi, tenho orgulho de todos, mas posso destacar o armador Charles Byrd, um dos melhores americanos que passaram pelo Brasil. Foi meu jogador em Blumenau e realmente é um exemplo de profissional. Foi o cestinha da Liga Nacional quando o dirigi.

Como atleta, joguei contra uma geração de ouro do basquete nacional. Embora minha carreira tenha sido curta, pois logo me tornei treinador, enfrentei vários atletas como Oscar Schmidt, Cadum, Israel, Gerson e tantos outros da nata do basquete nacional

BasqueteSC: Como vê o basquete de hoje em relação à época em que era jogador?

Serjão: O basquete mudou muito. A intensidade do jogo é muito grande. A partir dos anos 90 com maior acesso à NBA (treinamentos, jogadas), o esporte passou a ser jogado em outra dimensão. Alguns atletas elevaram o nível do jogo como Michael Jordan, Kobre Bryant, Lebron James. Em alguns aspetos, o basquete se tornou menos técnico, pois era mais bonito de se ver, mais plástico e hoje está muito intenso. Alguns jogadores usam uma força física bastante grande no jogo e uma plasticidade bonita. Sem dúvida, o basquete hoje é muito melhor e evoluído do que na minha época. Não tem nem comparação. Às vezes, a gente olha algumas fitas (VHS) antigas e parece outro esporte.

BasqueteSC: Como avalia o atual momento do basquete catarinense?

Serjão: Vivemos um momento único no basquete de Santa Catarina. Os investimentos da Trimania ajudam a revolucionar o nosso esporte através da massificação e aumento significativo da quantidade de praticantes tanto no masculino como no feminino. As equipes que aproveitarem o momento para transformar o basquete num produto, criar estrutura e assim mostrarem ao empresariado uma organização, conseguirão futuramente andar com as próprias pernas. Toda ajuda é bem-vinda e será excelente se o apoio dos investidores e da FCB continuar por muito tempo, sendo ótimo para todos. No entanto, não devemos nos acomodar e cabe procurarmos alternativas, profissionalizando o trabalho que está sendo feito para caso este momento passe um dia, estarmos preparados e se não passar, estarmos fortes para alcançar objetivos maiores.

BasqueteSC:  Quais conselhos daria a quem quer ser profissional do basquete?

Serjão: O esporte imita a vida, assim é preciso ter muita perseverança, amar o que faz e não estar preocupado com o dinheiro, pois ele vem naturalmente como consequência do prazer e do trabalho. Tem que se dedicar intensamente, focar e saber que aquilo vai demandar sacrifício e momentos ruins. Se desistir no primeiro, no segundo, no terceiro ou no milésimo obstáculo, não irá chegar a lugar algum. No meu caso, minha família demorou a me apoiar, pois era muito difícil viver do basquetebol. Tive que brigar e por isso quase fugi de casa para continuar jogando. Hoje em dia, os garotos têm maior facilidade, apoio familiar, mas às vezes não se dedicam tanto quanto deveriam. Meu conselho, não só para o basquete, mas para a vida, é ter humildade, dedicação, querer aprender sempre, saber que o jogo/obstáculo a ser vencido é o próximo. Comemorar até meia-noite, mas um minuto depois já estar descansando, pensando no próximo desafio, pois quem não tem vontade de superar os desafios não chega a lugar algum. Por mais que tenha conquistado algo, o jogo ou título mais importante é o próximo.



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